Sonhos de foca
Marcel Beyer
De novo aquele velho sonho de foca,
que você já conhece de livros infantis.
A noite inteira você rola de um lado
pra outro e com seus olhos siderais
observa como se levanta com esforço
da água e se arrasta até o banco
de areia, como se gravemente ferido.
Você ouve seu uivo. Depois disso
já não sabe mais ao certo, se no sonho
você mesmo é a foca ou se na verdade
é o menino de calção de banho, que
se comporta feito um suábio fascista.
Você observa com seus olhos de lago
profundo, como esse menino corre –
um ponto distante, de repente de pé
na sua frente. A pazinha de plástico
pra te bater bem no nariz, o baldinho
de plástico pra lançar toda a areia
nos seus olhos, ele finge cada gesto,
domina sua artimanha. Meninos
do interior com calção de banho:
você já sabe. Logo ele vai te puxar
nos bigodes. E o seu horizonte
se rompe. Onde estão agora as amigas
focas? Onde está o banco de focas,
onde fica o mar, o céu, onde está
o vento? Você faz parte de uma colônia,
sem compaixão? Neste exato instante,
no qual você pensa não poder mais
aguentar, no rosto dele a expressão
se altera, como se a ele se abrisse
uma fenda de lembranças entre
a boca e o queixo e você acorda,
antes que – eles selam uma boa amizade
de férias, pegam ondas todos os dias
cada vez mais juntos, para no fim
do verão se despedirem tristes
um do outro – a segunda parte
desse velho sonho de foca, nos livros
infantis mais baratos, comece.

