Ars Poetica
Valzhyna Mort
Não livros, senão
uma rua que abriu minha boca como uma espátula médica.
Uma a uma, se apresentam as ruas
com os nomes de seus nacionais
assassinos.
Nos arquivos públicos
as folhas de fichários
incrustam
no sangue dos registros.
Dentro de um apartamento mínimo criei
para mim um cubículo.
*
Dentro de um apartamento mínimo
criei para mim
um cubículo
e a povoei com
Calibans,
planos para o futuro.
Futuro que se orienta pelas linhas de ônibus
do zoo até o circo,
que futuro.
Qual álibi terá para esses registros,
as ruas, o apartamento, caro futuro?
*
Naquela bolsa
que conservava – três guerras seguidas - a certidão de nascimento
dos mortos, a minha avó
de mim escondia
os bombons.
A bolsa se abria como uma boca para o grito.
*
A bolsa se abria como uma boca para o grito.
Seus dois botões me seguiam através das paredes,
através dos dias,
através do jazz.
Quem te ensinou, cara bolsa, a fazer esta cara
de espanto?
Beijo seus botões, juro servidão eterna.
*
Agosto. Maçãs. Estou completamente sozinha.
Uma maçã madura é como uma irmã.
A mesa de quatro pernas, meu gato.
*
Na catedral do supermercado
me meto
como uma vela, na fila
das sacerdotisas
que preservam saberes e o preço da alcatra
a virgindade
das embalagens de leite.
Meu futuro – um trocado que sobra da cesta básica.
Futuro que se orienta pelas linhas de ônibus.
Ruas que se apresentam
com os nomes de seus assassinos,
criei para mim, no entanto,
um cubículo
onde a memória –
imigrante ilegal do tempo –
limpa o caminho aberto pela fantasia.
Cubículo, onde a memória desfaz as camas –
o lençol, que se incrustou
no colchão – eu beijo
as maçãs – irmãzinhas, beijo os botões
que nos segue através das paredes,
através dos dias,
através do jazz;
beijo os bombons da bolsa
que preservava
–tres guerras seguidas–
a certidão de nascimento dos mortos!
Me segure firme, maçã, irmãzinha.Valzhyna Mort, nascida em 1981 em Minsk, vive nos EUA desde 2005 e, desde então, escreve em bielorrusso e em inglês. O grande poeta polonês Adam Zagajewski escreveu sobre Mort: “Esses poemas não são apenas comoventes, eles realizam o trabalho mais elementar da linguagem humana. Eles elevam o miserável, o bárbaro, o insensível ao nível de um idioma universal de sabedoria e graça.”
Foto: Kapitonova.


